São Paulo, Brazil
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29 de junho de 2009

“A Copa no Brasil será uma grande festa com dinheiro público”


O Doutor Sócrates opina que o Flamengo é “a cara do Brasil” e que Zico foi “o maior jogador com quem joguei”. Conta de sua viagem para a ilha de Cuba e declara: “Meus ídolos são Fidel, Che Guevara e Lennon”. Diz admirar Maradona e afirma sobre o Deus argentino: “Como técnico ele virou humano de novo”.

25 de junho. Higienópolis, São Paulo. O jantar reúne apenas os mais íntimos do Sócrates (entre eles, os jornalistas Vladir Lemos e Xico Sá). O Doutor acende mais um cigarro e se mostra predisposto para a conversa.
“Hoje vivo intensamente. Faço política o dia todo, só não quero virar um político profissional. Gostaria de ter mais um filho. Meu caçula está com três anos. Sabe qual o nome dele? Fidel Brasileiro” conta aos 55 anos o homem que tem seis irmãos e seis filhos, todos homens.

“Desde meu laboratório em Ribeirão Preto exerço a medicina esportiva e agora estou com projetos voltados para clínicas sociais. Historicamente sou um dos poucos jogadores formados no Brasil. A educação no esporte é desestimulada pelo próprio sistema” afirma o diplomado pela USP, também ex-compositor, cantor, ator e dramaturgo.

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira nasceu um 19 de fevereiro (mesmo dia que a jogadora Marta) na cidade de Belém, no Pará, um dos estados mais marginalizados do Brasil, inclusive na hora de sediar a Copa em 2014. “Acho que a eleição de Manaus foi uma escolha política. Se fossem respeitados os critérios, Belém teria as condições para ser sede pela infraestrutura e projeto social” critica. “A grande preocupação é saber se o investimento na Copa também poderá melhorar a qualidade de vida da população. Não está nas mãos de gente qualificada para isso. Acredito que vai ser uma grande festa com dinheiro público e pouco investimento em infraestrutura social” opina Sócrates em uma entrevista exclusiva ao El Diego.

Pausadamente e de forma analítica, um dos maiores astros do futebol vai enumerando as misérias sul-americanas. “No Brasil há jogadores de média e baixa qualidade com remunerações altíssimas. A cultura da remuneração está viciada por culpa da corrupção coletiva. O jogador passa a ser celebridade, a ser mais importante que o coletivo, essência do futebol. Uma tendência ‘natural’ da sociedade moderna: o sucesso é que vale, não a arte. O dinheiro é que vale, não a capacidade de produzir para a sociedade. Os empresários manipulam de forma irrestrita a defesa do atleta, influindo muitas vezes na própria ignorância do atleta. Futebol brasileiro é mestre em vender jogadores para fora. No futuro, nossos jogadores serão formados na Europa” declara o ex-líder da famosa Democracia Corintiana e um dos autores do livro Democracia Corintiana, a utopia em jogo.

O atual comentarista do programa esportivo Cartão Verde e colunista da revista Carta Capital, afirma que existe um “distanciamento cultural” no Brasil. “O futebol praticado não tem muito a ver com aquele que o povo espera. Nós queremos assistir um futebol livre, criativo, alegre, até irresponsável, voltado ao espetáculo. Não temos visto isso há tempos. Na minha perspectiva, o público cada vez mais vai se afastar do futebol”.
-O público está se identificando menos com a seleção brasileira?
-Há pouca gente interessada na seleção. Nossa cultura não é comunitária, somos individualistas. A bandeira de um time substitui o que nós não temos na cultura tradicional. Não gosto da seleção de Dunga. Não me atrai o futebol de hoje, raramente assisto a um bom jogo.

Sócrates enumera as suas seleções preferidas: Holanda ‘74, Brasil ’70 e ‘82, Argentina ’94 (“o melhor time argentino que eu vi jogar”, diz). Opina que a seleção da Espanha hoje joga o melhor futebol, “mas não tem o peso da camisa para ser campeão em 2010”. Nos últimos tempos, ele diz haver gostado de um jogador: “Ronaldinho Gaúcho, naquela boa fase no Barcelona”, comenta.

Na autobiografia de Maradona, o craque argentino escreveu sobre o ídolo brasileiro: “Além de ser um jogador diferente, Sócrates também foi um lutador pelos direitos do jogador, como eu. Colocava vinchas (faixas na testa) para protestar, apesar de a FIFA não aceitar”.
-Conheceu Maradona fora dos gramados? Qual é sua opinião sobre ele?
-Eu sou um admirador de Maradona pela sua absurda criação. Em meu primeiro jogo na Fiorentina de Itália, ele fez uma jogada mágica atuando no Napoli. Nunca nos sentamos para conversar. O que mais admiro nele é sua forma de expor as idéias, a sua relação com Cuba, que eu também tenho.
-O que significam Cuba e Che Guevara na sua vida?
-Fidel é um de meus ídolos. Os outros são “Che” e Lennon. Há uns cinco, seis anos viajei para Cuba. Eu adorei, realizei meu sonho. O Che Guevara representa o sonhador. Quem poderia na história da humanidade ser comparado a ele em busca de seu ideal?
-Quem você considera o esportista brasileiro mais querido pelo povo?
-Ayrton Senna. Até pela tragédia.
-Por que nunca vemos o Rei Pelé com a camisa de sua pátria, alentando com amor sincero sua seleção?
-Depende da personalidade. Não acho criticável. Eu tenho paixão pelo meu país. Não saio do Brasil nem a pau! Não consigo nem me imaginar vivendo fora da minha pátria de novo. As experiências que tive lá fora foram traumáticas. Sofri, senti um vazio absoluto. Eu me chamo Brasileiro até em meu nome! Sou brasileiro na essência.

Ping Pong com Sócrates
Democracia Corintiana: o máximo
Flamengo: a cara do Brasil
Marta Vieira da Silva: jogadora fantástica. Nunca imaginei que uma mulher poderia jogar tanta bola
Futebol feminino no Brasil: abandonado
Pelé: grande personagem do futebol mundial
Maradona: jogador excepcional. Muito mais cômodo é manter viva a chama do que ele fez como jogador. Foi corajoso ao aceitar sua seleção. Como técnico, Maradona virou humano de novo. Vai levar pedradas, xingadas, virou humano! (gargalhadas)
Platini: jogador fantástico. Como cartola, conservador demais
Ronaldo fenômeno: figuraça
Paulo Roberto Falcão: gentleman
Zico: o maior jogador com quem eu joguei
Romário: eshshperto
Walter Casagrande: Casão, amigão!
Paolo Rossi: carrasco!!
Messi: o grande jogador do momento. É leve
Maracanaço: tragédia
Galvão Bueno: vende peixe para o povão. Maquiagem
Felipão: gente boa, ele merece suas conquistas
Vanderley Luxemburgo: acho meio arrogante, é a sua defesa. Belo treinador
Telê Santana: paisão para mim
Dunga: uma história de resistência. Até hoje é combatido, um trapezista sem rede
Ricardo Teixeira: sem comentários...
João Havelange: o pai dele foi um belo nadador (gargalhadas)
FIFA: centro de poder político pesado
Luiz Inácio Lula da Silva: melhor Presidente do Brasil
Sócrates na política: eu Presidente ou Ministro de Esportes?. Não gostaria. Eu faço o meu barulho de acordo com o meu tamanho
Raí: meu irmão é adorável!
Sócrates: este cara aqui! (risos)

2 comentários:

  1. Esse foi craque sem precisar treinar. A figura dele e seu futebol tinha total sintonia quando jogava pela seleção brasileira.
    Diego, agora tá na hora de vir um são paulino para entrevista.
    Um abraço,
    Giovani

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  2. Diego parabens pela nota, esse e o craque verdadeiro. Te felicito por haber logrado esa nota fanastica y mostrar por medio de ese idolo tan fenomenal para el futbol brasilero
    "El Doctor Socrates" su lado social y el compromiso por los que menos tienen. Un fuerte abrazo
    Dario

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