São Paulo, Brazil
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24 de outubro de 2009

Para o povo de Dois Riachos


Fotos: Dois Riachos (AL) -Dezembro de 2004.
Eu com alguns de meus queridos amigos e bebendo pinga no bar.

Abril de 2004. São Paulo.
Sinto-me sozinho. Em um outro país, longe da minha cultura, da minha língua. Na condição de jornalista, sonho abraçar uma história e que ela me abrace naturalmente. Então, a vislumbro virgem, genuína.

Decido escrever a biografia da brasileira Marta, até então, apenas mais uma jogadora no país do futebol masculino. Era a história de uma moça sem nenhuma badalação, sem qualquer título, nos primeiros passos de sua carreira. Seu lugar de origem: Dois Riachos (AL)

Sinto-me culpado. Deixo a minha esposa e meu filho brasileiro recém nascido. Passarei meu primeiro natal no Brasil, em um lugar que não figura nos mapas. Os paulistas ignoram o destino. Na estação de ônibus de Maceió me informam que Dois Riachos existe.

O trajeto de umas quatro horas de Maceió até Dois Riachos em um ônibus popular é um roteiro documental para a National Geografic. Esses caminhos, essas terras, essas pessoas! Parece um outro país.

Para este lugar singelo não vão turistas. Lá não há vista para o mar. Às vezes não há água para viver. Não chegam jornalistas. Não há como entender minha visita a Dois Riachos. Os habitantes me cumprimentam e riem.

Dois Riachos tem uns 12 mil habitantes. Há paciência e confiança. Há forró e pinga que consola. Há noites de luas e estrelas que não se vivenciam em um Oásis. Há amor pela camisa do CSA (Clube Social Alagoano) Há craques condenados ao anonimato.

Há algo profundo que me faz sentir como se estivesse em casa. Algo profundo que me faz chorar enquanto escrevo esse texto. Queridos amigos de Dois Riachos, me emociono quando penso em vocês. Sem Dois Riachos, não haveria livro (Você é mulher, Marta!) Não há história sem protagonistas.

Eu não lhes dei dinheiro, nem prometi empregos, ou uma vida mais digna. Não cheguei com tratores para consertar a estrada abandonada. Não reparti passagens de ida para as pretensas oportunidades. Não fiz o milagre de produzir água bendita para suas bocas sedentas de sonhos. Não comprei sacolas de cimento para a tribuna do CSA. Entretanto, são tão amorosos comigo!

Os donos do bar me homenageiam chamando de Dieguito seu primeiro filho. As famílias cozinham para mim. Convidam-me para seus casamentos, suas orações com Deus, suas partidas de futebol. Sinto prazer em estar com eles.

Cinco anos depois da minha visita, lamento que Dois Riachos não tenha entrado para a história pelas minhas mãos e do modo como sonhei, pois a biografia que estava autorizada foi, inesperadamente, desautorizada.

Mas não há como apagar a vivência, a minha emoção genuína.

Eu levei meus ouvidos para Dois Riachos, meus olhos, minhas mãos, meus pés, minha alma.

4 comentários:

  1. Lamentável a falta de "palavra" dessa "distinta" jogadora do SANTOS.

    E não é que Ruy Castro a quem escuto semanalmente na Band News FM com seus comentários extremamente bairrista( aquem admiro deveras) tem razão, biografia de pessoa viva é bem complicada, se de pessoas mortas já é...

    Não tive a oportunidade de ler esse seu trabalho, porém sei que foi bem feito e você não seria suicida em fazer algo que ela não autorizou, ainda mais que as fotos de você com ela comprovam que o contato foi feito, enfim...

    Como dizem alguns, subiu pra cabeça, dela....

    Sinto, e muito, por você!

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  2. Diego,

    o texto ficou excelente e emocionante. Trata-se de um desafogo de sentimentos reprimidos e vivos em sua alma. Parabéns pelo seu trabalho em Dois Riachos e pelo livro.

    Marco A.

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  3. Grande Diego! É a primeira vez que comento em seu Blog, e é com imenso prazer que o faço, justificado pelo carinho e sentimento com que escreves a denotarem uma sincerdade rara.

    Fiquei emocionado ao ler suas palavras!!Principalmente ao descrever nosso povo (nordestino do qual faço parte com orgulho) representado pela população de Dois Riachos. Este Brasil muitas vezes esquecido e tratado com desprezo, tem uma beleza natural e cultural enormes,além de uma população completamente apaixonada pelo futebol local. Quem dera um dia CSA e CRB (equipes locais de Alagoas) consigam soerguer a força do futebol de seu respectivo estado.
    E que Marta, a autêntica filha e pedra preciosa deste Nordeste, possa ser referenciada em sua obra em breve de forma tão independente e sicera na sua escrita!! Forte abraço hermano!! E seja sempre bem-vindo à nossa região!!

    Rodrigo, hincha de Ceará Sporting Club, un de los dos únicos equipos representantes del nordeste brasileño en la A 2010!

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  4. Saudades Meu Amiigo E Parceiiro Diego...
    DOis Riachos-Al

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