São Paulo, Brazil
(JORNALISMO INDEPENDENTE) Contato: diego_graciano@hotmail.com

29 de maio de 2009

“Eu não me sinto o maior ídolo da história do Palmeiras”

Aos 67 anos, o Divino Ademir da Guia homenageia seu pai e diz sonhar em ver jogar nos gramados seu filho caçula. Opina sobre o presente do goleiro Marcos e afirma que não sente mágoas de sua passagem pela seleção brasileira.

Ademir impõe com seu jogo o ritmo do chumbo (e o peso), da lesma, da câmara lenta, do homem dentro do pesadelo
(fragmento poema de João Cabral de Melo Neto)

Em fins do século XIX, no bairro carioca de Bangu, chegou ao Brasil a primeira bola de couro. Naquele berço do futebol, cresceu a família da Guia.
Domingos da Guia e dois irmãos dele fizeram grande sucesso no Bangu Atlético Clube, fundado em 1904 e pioneiro em aceitar um jogador negro no time. Enquanto os da Guia se destacavam nos gramados do Brasil, Ademir praticava natação. “Bangu era muito quente, a praia estava distante, eu cheguei a ser campeão carioca, mas minha grande paixão não era nadar” diz hoje Ademir.

Seu pai jogou na seleção brasileira e consagrou-se campeão em São Paulo, Rio, Montevidéu e Buenos Aires. Até foi ídolo no Boca Juniors. O escritor uruguaio Eduardo Galeano, o homenageou no seu livro “Fútbol a sol y sombra”: A leste a muralha China. A Oeste, Domingos da Guia.

“Eu me espelhei no meu pai, herdei sua técnica. No início da minha carreira, me corrigia. Meu pai jogava atrás, eu no meio, e agora meu filho joga na frente. Meu sonho é poder vê-lo jogar nos gramados. Eu não vi meu pai jogar profissionalmente, não deu tempo” comenta o Divino. O filho caçula de Ademir leva seu nome, tem quase 19 anos, já treinou no Palmeiras e no Santo André, à espera da sua oportunidade enquanto se recupera de uma operação no joelho.

“Em 2011 irei fazer cinqüenta anos no meu Palmeiras. Eu não me sinto o maior ídolo da história do clube, jamais tive essa vaidade. Estar entre os dez mais gloriosos já é importante para mim. Tem torcedor que acha que Ademir foi o maior, tem torcedor que acha que foi outro jogador. Para mim, ser o maior ídolo não quer dizer nada. Eu gosto muito mais de merecer o carinho das pessoas” diz o ex-craque que mais vezes vestiu a camisa do verdão.

“Eu sinto que a torcida gosta muito de Marcos, acho isso muito importante. Ele vem jogando bem” opina sobre o goleiro. “Marcos conseguiu ser campeão mundial e acho que nos seus 35 anos não quer mais a seleção e prefere se dedicar ao clube. Se Dunga pensa em preparar um goleiro para o futuro da seleção, vai levar goleiros mais jovens. Para convocar Marcos agora e ele ficar na reserva, não dá” afirma Ademir numa entrevista exclusiva ao El Diego.

Sobre a seleção atual, o Divino acha que “tem grandes nomes, mas ainda não é um conjunto. Convocando dois jogadores do Internacional, o Dunga desfalca o time gaúcho. Não adianta convocar Nilmar para ele ficar na reserva. Se não dá para ele jogar, deixa no Inter, não prejudique o clube” opina o homem que já experimentou o fato de ser reserva numa seleção.

Um dos responsáveis da chamada "Academia de Futebol", afirma que não guarda mágoas da seleção brasileira apesar de não haver sido convocado nas Copas de 1966 e 1970. “Havia grandes jogadores na minha posição. O técnico Zagallo gostava muito de Gerson, Rivellino. Não me senti injustiçado. Minha carreira foi no Palmeiras. Na seleção não tive chances. Se as pessoas lembram mais de Gerson, Rivellino, Pelé, é porque eles conseguiram ser campeões mundiais” declara com sinceridade.

Para muitos torcedores foi uma injustiça o fato dele haver sido substituído num jogo decisivo durante o Mundial de 1974. “A seleção dificulta a vida do jogador. Em ‘74 fui convocado, mas fiquei uns três meses sem jogar. Entrei contra Polônia sem ritmo de jogos, sem conhecer meus companheiros. O jogo estava 0-0 quando Zagallo decidiu tirar o meia (Ademir) para colocar um atacante (Mirandinha) A intenção dele foi boa, só que em vez de ganhar, ele perdeu. Não fiquei chateado pela minha substituição”.

Reconhece que naquela época os jogadores cariocas eram mais procurados nas convocações. “Existia aquele privilégio, era normal. A CBD estava localizada no Rio, os treinadores eram do Rio, eles acompanhavam mais o futebol carioca”.

Ademir pendurou as chuteiras em 1977 por um problema de saúde e diz que ficou afastado dez anos do futebol. “Ao voltar trabalhei dando aulas em escolhinas e durante um ano fui treinador das categorias de base no Palmeiras. Não havia estrutura amadora no clube, nem tínhamos campo para treinar”.
Entre 2005 e 2008 foi escolhido vereador da cidade de São Paulo. “Recebi um pouco mais de 27 mil votos. A política foi uma experiência positiva, aprendi muito. Porém se precisa de verba, muito trabalho e de pessoas que ajudem”.

“Hoje não tenho mais aquela garra de ser treinador, de chegar as nove no campo, com sol, chuva, fazer viagens. Estou diminuindo minhas atividades, sou aposentado, acho que já passou minha época” diz o protagonista de uma autobiografia, de um filme, de um busto no Parque Antártica, e de uma foto ou autógrafo a cada passo que dá.